Junho 08, 2008

Até

Sou pior que a imagem de um cachorro abandonado agoniado com fome coagido no canto escuro com medo dos animais das trevas carnais com olhar pedinte corpo encolhido coração sofrido de amor incorrespondido delirante reflexivo cachorro perdido sem água sem comida no frio bandido que fere destrói consome a chama quente do amor prometido ao som de valsa e piano e violino e gargalhadas a vida miserável continua tão intensa que se fosse piada seria vivência de verdade contínua tragédia incapaz de escrever em destoância enloquecedora que mantém acessa a chama duradoura de que você minha dona vem me recolher. Se não vier esta noite eu entrego a sanidade à saudade ao tempo inimigo meu pior castigo meu melhor amigo brado pertinente ardente transmuta nos medos que a puta solidão constrói e corrói o cerne o âmago provoca a ilusão a luz do dia não existe ao cachorro abandonado melancólico bebe da gota da água da calha imunda que pinga propositalmente no silêncio da quase morte que se aproxima disfarçada de aranha ratazana lepra vagabunda misericórdia ausente como a faca pra tornar o momento sufocante menos delirante suicidado e findado a vida valente suspira até o último segundo por mais vida não se valendo tirar da própria vida o resto de vida que existe por pior que seja esquecida o esquecido espera devagar a morte irônica disfarçada do meu maior desejo você minha dona do meu último olhar. Cachorro não temas por ter escolhido tua imagem a minha semelhança posto que ainda há esperança a ti e eu já espero a mudança desta vida à morte que se eu tiver um resto de sorte me tomará com a ânsia que minha dona não teve. Coma da minha carne pútrida enquanto em coma morro transito desta pra não sei qual sem pedir socorro um grito no silêncio é Carrer.

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